Moscovo e lisboa celebram mais de dois séculos de contactosTOS

Por José Milhazes

As viagens do czar Pedro I (1672-1725) a vários países europeus, em 1697, vieram alargar fortemente os horizontes e os interesses da diplomacia russa, dando início à política de abertura da “janela para Europa”. A saída para o Mar Báltico, conquistada pela força das armas russas, vai constituir a “janela” que dá acesso ao Atlântico e depois ao Mediterrâneo. Pedro I, o Grande, certamente conhecia Portugal, pois tinha perto de si dois judeus portugueses que ocuparam importantes cargos na sua corte: António Vieira (em russo Devier), primeiro chefe da polícia de São Petersburgo, nova capital da Rússia que ele ajudou a construir, e João da Costa, culto bobo do czar russo.

Na corte imperial teve também grande influência o médico português Ribeiro Sanches a quem é creditado o mérito de muito ter contribuído para a formação dos seus colegas russos.

No entanto, pelo menos a julgar pelos documentos conhecidos, Pedro revela algum interesse por Portugal apenas no fim do seu reinado, em 1722, quando decide que “também é preciso para Portugal um cônsul”.

Esta decisão não tem continuidade e tentativas de estabelecimento de relações comerciais e diplomáticas entre a Rússia e Portugal, voltam a ser empreendidas pela czarina Elizabete, filha de Pedro I, em meados do séc. XVIII.

Depois de aturadas conversações, a imperatriz Catarina II acaba por nomear, em 1769, o primeiro cônsul em Lisboa: João António Borchers. Dez anos depois, em 1779, por decisão de D.Maria I e Catarina, chega a São Petersburgo o primeiro embaixador português na Rússia, Francisco José da Horta Machado. São os 225 anos deste relacionamento que os dois países agora celebram.

Na obra “Relações entre Portugal e a Rússia. Séc. XVIII a séc. XX”, o professor José Sigismundo de Saldanha sublinha que o estabelecimento de relações entre os dois países teve, como uma das causas, a “decadência aparente da Inglaterra” devido à guerra da independência americana, o que vai levar Portugal a mostrar-se “interessado”, mas com uma certa prudência”, em participar do Tratado de Neutralidade Armada concluído entre a Rússia, a Dinamarca e a Holanda”.

A isso pode-se acrescentar que a Rússia passa a ter interesses estratégicos no Mediterrâneo e Lisboa transforma-se numa  base de apoio aos seus navios comerciais e militares. Além disso, os dois países procuram novos mercados para os seus produtos.

À  medida que as relações diplomáticas e comerciais se intensificam entre os dois países, aumentam também os contactos a outros níveis, nomeadamente no campo do intercâmbio de ideias. Por exemplo, as camadas  cultas da sociedade russa seguem atentamente as revoltas liberais em Portugal e Espanha no séc. XIX.

“Para além dos Pirenéus/ a liberdade dirige os destinos do povo/ E apenas o Norte continua coberto pelo despotismo”, escrevia o poeta russo Alexandre Puschkin. Pavel Pestel, dirigente da revolução liberal russa falhada de Dezembro de 1825, dizia, nos interrogatórios a que foi sujeito pela polícia: “Os acontecimentos em Nápoles, Espanha e Portugal... reforçaram em mim os sentimentos republicanos e revolucionários”.

As relações entre Portugal e a Rússia vão sofrendo altos e baixos, dependendo fortemente da conjuntura internacional. No início do século XX, durante a guerra russo-japonesa, Portugal declarou a sua neutralidade e recusou-se a fornecer carvão e mantimentos à esquadra russa que passaria por Lisboa na viagem do Báltico para o Extremo Oriente. Lisboa temia represálias dos japoneses contra Macau.

Por altura da implantação da república em Portugal em 1910, a corte russa reconhece o novo regime após algumas hesitações, mas a diplomacia portuguesa não fez o mesmo face à revolução comunista de 1917, dando início a uma ruptura de relações que terminou apenas após o 25 de Abril de 1974.

Portugal vê-se então envolvido na guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, sendo de assinalar que a sensatez e precaução da política externa soviética contribuíram, segundo vários analistas regionais, para evitar um banho de sangue em Portugal em 1975. Moscovo não apoiou a intenção da direcção do Partido Comunista Português de, copiando as teses de Lenine, passar da fase da “revolução democrático-burguesa” para a “revolução socialista”.

Apesar de dois séculos de contactos, as  relações entre Portugal e Rússia estão ainda pouco estudadas. Existem ainda numerosas lacunas, mas os ministérios dos Negócios Estrangeiros dos dois países prometem a publicação, até ao fim do ano, do primeiro volume de documentos diplomáticos que cobrem o período de 1732 e 1825. Depois, deverá ser editado um segundo, que englobará documentos até 1917.

Público, dia 11 de Março de 2004