Como a moscóvia “descobriu” portugal

Por José Milhazes

As primeiras informações sobre Portugal em documentos russos aparecem nos séculos XV e XVI. No texto “Reis dos Países Europeus”, publicado em 13 diferentes anais russos (escrito, segundo alguns especialistas, entre 1412 e 1414, e segundo outros entre 1506 e 1513), lê-se: “O césar é o césar romano. E este é seguido pelo rei alemão, herdeiro do Reino de Roma. E a seguir a esse está o rei francês. E a seguir vem o húngaro. E a seguir vem o rei espanhol. E a seguir vem o rei inglês. E a seguir vem o rei português. E a seguir vem o rei napolitano...”.

Na luta contra o domínio das rotas marítimas das especiarias orientais pelos portugueses, alguns Estados europeus tentaram fazer alianças com a Moscóvia contra Portugal, o que prova que, pelo menos remotamente, às longínquas terras dos grãos-duques russos chegavam notícias de Portugal.

Por exemplo, em 1521, uma missão diplomática genovesa deslocou-se a Moscovo a fim de envolver o czar russo Vassili III (1479-1533) na sua estratégia geopolítica de compensação da perda da rota das especiarias, que passou a ser controlada pelos portugueses com a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama.

Nesse ano, rezam os Anais de Nikon, o capitão genovês Paolo, “munido de cartas do Papa Leão X e do magistrado alemão Alberto”, chegou a Moscovo, “tendo como intenção importante abrir uma rota comercial para o Industão através da Rússia”.

Segundo o cronista, “antes de bem-sucedida descoberta de Vasco da Gama, as mercadorias da Índia chegavam à Europa ou pelo golfo Pérsico, rio Eufrates, Mar Negro, ou pelo golfo Pérscico, rio Nilo e Mar Mediterrâneo”. Os portugueses conquistaram, porém, as costas da Índia, dominando todo o comércio de especiarias. “Movido pela vontade de tirar aos portugueses o direito exclusivo desse comércio – relatam os Anais de Nikon -, o viajante genovês falou convincentemente aos nossos boiardos que nós, em poucos anos, poderíamos ficar ricos com ele; que os cofres do czar se encheriam de outro devido aos impostos”.

Não obstante a eloquência do genovês, o czar Vassili III não aceitou esse plano, porque pretendia não autorizar a abertura das rotas comerciais em território russo aos estrangeiros.

Seguir as descobertas

Em geral, a corte russa seguia com atenção as descobertas marítimas dos portugueses e espanhóis. Nos anos 30 ou 40 do séc. XVI, o escritor e tradutor russo de origem grega, Maksim Grec, escrevia sobre a descoberta das Ilhas Molucas por navegadores portugueses em 1512: “Encontraram muitas ilhas, sendo umas habitadas e outras desertas. (...) Encontraram as chamadas ilhas Molucas, até agora desconhecidas do género humano”.

Não existem provas da existência de trocas comerciais entre os dois países, mas o certo é que nessa altura o “português”, moeda de ouro cunhada por D.Manuel I, era de tal forma cotada na corte russa que czares como Ivan, o Terrível (1530-1584), a utilizaram para recompensar os seus boiardos por feitos militares. Alguns estudiosos russos consideram que o “portugal”, como esta moeda era conhecida na Rússia, foi a primeira condecoração oficial de Moscóvia.

A elite política russa conhecia também Portugal através de obras europeias que eram traduzidas para russo. Por exemplo, no séc. XVII, encontra-se na biblioteca do Patriarca Ortodoxo russo, Nikon, a obra “Theatrum orbis terrarum sive Atlas novus in quo tabulae et descriptinoes omnium regionum. Editae a Guiljelmo et Ioanne Blaeu”.

Os embaixadores russos enviados à Europa transmitiam também à corte de Moscovo informações sobre Portugal. O primeiro relatório deste tipo foi escrito pelo diplomata Afanassi Rezanov, que tinha sido enviado à corte do imperador alemão Rudolfo II. Em 26 de Junho de 1581, comunicou a perda da independência de Portugal: “O rei espanhol ocupou o Reino de Portugal e tornou-se senhor nesse reino”.

Em 1582, a corte russa recebia informações mais precisas dos seus enviados a Viena e Roma: “O rei português (D.Sebastião) foi morto por turcos e árabes nas terras da Índia, o rei assassinado era parente do rei espanhol Filipe e não havia mais ninguém além deste para governar a terra portuguesa”.

Portugal volta a aparecer em documentos de 1685, quando os czares Ivan e Pedro (este será mais tarde imperador Pedro, o Grande) ordenam ao seu escrivão Ivan Volkov, enviado a Veneza, que obtivesse informações dos “reinos de Espanha, Portugal, Inglaterra e Dinamarca”.

No entanto, foi preciso esperar mais de cem anos para que, finalmente, fossem estabelecidas relações diplomáticas e comerciais estáveis entre os dois países.

Público, dia 11 de Março de 2004