Entrevista do Presidente da Câmara de Comércio e Indústria da Federação da Rússia Serguei Katyrin à revista "Diálogo: Portugal-Rússia"

"Estamos dispostos a apoiar investidores estrangeiros"

Fale-nos sobre as tarefas primordiais da CCI FR e sobre as orientações fundamentais da sua actividade.

As duas tarefas fundamentais da CCI FR foram e continuam a ser a defesa e a representação dos interesses dos em¬presários, assim como dar-lhes assistência, do ponto de vista de prestação de serviços. Há também algumas orientações em que deveremos intensificar o nosso esforço, nomeadamente no sector do investimento.

No que diz respeito às tarefas primordiais da CCI, essas serão três: o problema da formação de preços, inclusive das tarifas aos serviços dos monopólios naturais, desenvolver o mercado das inovações e participar no debate do projecto de lei sobre o sistema federal de contratos.

Algumas palavras sobre as suas funções como dirigente na CCI FR. Que outras organizações representa?

A minha tarefa principal como Presidente da CCI será coordenar o trabalho das câmaras de comércio e in¬dústria regionais, das alianças e de outras associações de empresários, organizar a interacção com os órgãos do poder legislativo e executivo das regiões do país.

A actividade internacional ocupa um lugar importante no meu trabalho. Além disso, represento a Câmara de Comércio e Indústria da Rússia nas grandes associações sociais de empresários, faço parte da composição dos seus órgãos dirigentes, sou membro do Conselho
Social para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas no parlamento.

Veio substituir no cargo Evgueny Maximovitch Primakov que anunciou a sua demissão depois de dirigir durante 10 anos a Câmara de Comércio e Indústria...

Estou muito agradecido a Evgueny Maximovitch que foi meu professor durante 10 anos e que propôs a minha candidatura. Aprendi muito com ele e tenho esperança de conseguir utilizar no nosso trabalho tudo o que ele me ensinou.

Como é que a nova direcção da CCI irá desenvolver o apoio às pequenas empresas?

As pequenas empresas têm sido o fulcro no nosso trabalho durante os últimos anos. Sem o seu desenvolvimento pouco conseguiremos fazer na Rússia tanto do ponto de vista do avanço das inovações, como do ponto de vista da criação de novos postos de trabalho. Relativamente às pequenas empresas em relação ao PIB estamos muito atrasados. Em todos os países desenvolvidos essa matéria constitui metade do PIB, chegando por vezes a ser um pouco mais, e nós, naturalmente, teremos também que avançar nessa direcção. Com a participação directa da CCI foi recentemente aprovada a lei "Sobre o Desenvolvimento das Pequenas e Médias Empresas", um compromisso que convém tanto às empresas, como ao business.

Que problemas existem hoje no business russo em geral?

A corrupção é o problema mais importante para todas as formas do business russo. O business não pode aguentar mais. Temos planos de luta contra este mal e há um grande desejo de transformar este trabalho em sistema em todas as Câmaras de Comércio e Indústria da Rússia. Trabalhamos neste sentido em conjunto com a Procuradoria-Geral, com a Duma Estatal, estudamos as leis em relação à componente da corrupção. Lamentavelmente, ainda não conseguimos mudanças radicais neste campo.

O nosso negócio não está ainda motivado para a introdução de inovações. No Ocidente o elevado grau da concorrência e os que introduzem as novas ideias, ganham nessa luta. Aqui, em alguns sectores, a concorrência nem existe e noutros é extremamente fraca. O incentivo criado pelo Estado sob a forma de preferências, é também praticamente inexistente.

Qual é a origem desses pro¬blemas e como devem ser resolvidos?

Suponho que uma das razões da corrupção é a abundância de regras de referência na legislação russa, e que permite emitir toda a espécie de instruções, leis e ramificações, o que no fim de contas, leva a que um funcionário com quem se deve coordenar a questão ter a possibilidade de ser corrompido. Com a corrupção sofrem os investidores. As pessoas chegam com o seu dinheiro e são forçadas a assinar muita papelada e nem todas conseguem vencer todos os obstáculos. Penso que as Câmaras de Comércio e Indústria regionais devem acompanhar os projectos de importantes investimentos e ajudar a superar todas as barreiras administrativas, ajudar a passar por todas essas dificuldades no menor espaço de tempo e sem despesas. Para que os negócios russos sejam incentivados com inovações, novas aplicações, são necessários não só novos estudos, como também quem os queira realizar, ou seja, que não só existam propostas, mas também procura.

Fale-nos sobre os vossos parceiros estrangeiros. Poderá a Câmara de Comércio e Indústria colaborar para atrair à Rússia investimentos estrangeiros directos?

A CCI tem uma rede no estrangeiro bem desenvolvida, em 16 países trabalham representantes nossos, foram cons¬tituídos 65 conselhos comerciais de cooperação com outros países, havendo comissões mistas. É uma grande força. Com a sua ajuda formamos a imagem positiva do nosso país aos olhos dos estrangeiros e esclarecemos os pormenores da legislação.

Nós temos com quem trabalhar no estrangeiro, temos pessoas através das quais podemos convidar para a Rússia potenciais investidores. Mas atrair es-trangeiros é só meio caminho andado, é preciso fazer com que ao visitarem a Rússia não fiquem decepcionados. Nesse ponto o centro de gravidade muda para as regiões onde trabalham, propriamente, os investidores. Nós consideramos que no país eles podem ter o apoio das nossas câmaras territoriais, podem acompanhar esses investidores e os seus projectos, podem ajudá-los a superar todas as cadeias burocráticas. Em algumas câmaras isso já é feito, como por exemplo, na região de Kaluga.

Quais as novas prioridades da CCI RF? Terá continuação a prática de apresentação das regiões russas?

Entre as prioridades encontra-se a apresentação das possibilidades turísticas e a realização de exposições. Indubitavelmente, a CCI RF continuará a fazer a apresentação das possibilidades das regiões russas para o investimento. Durante o último ano e meio foram realizados com sucesso em Moscovo dezenas desses eventos, em que os meios de negócio russos e estrangeiros e os diplomatas travaram conhecimento com o potencial, inclusive turístico e recreativo, das regiões de Altai, Krasnoiarsky, Kamtchatka, Stavropol, Smolensky, Khakasy, Sochi e da Repú¬blica do Altai. A Câmara de Comércio e da Indústria da Rússia continuará este trabalho no ano em curso porque os workshops são do agrado dos governadores e dos meios de negócios, porque têm retorno e contratos concretos. Captam negócios com estrangeiros e negócios de outras regiões da Rússia. Sentimos que não trabalhamos em vão. Cada região tem as suas coisas interessantes, cada uma tem as suas realizações, tem o que mostrar e o que contar. Por exemplo, a Região de Kaluga, onde não há gás nem petróleo, não tem renas nem focas, mas ocupa um dos primeiros lugares na Federação da Rússia na atracção de in¬vestimentos estrangeiros por habitante, há obras em andamento por toda a parte.

A CCI RF continuará a apoiar as regiões na organização de workshops nas suas cidades. Neste momento estamos a estudar a questão de construção de centros regionais para ex¬posições, para o que se prevê um financiamento baseado na parceria estatal e privada. Muitas regiões encarregaram as suas Câmaras Territoriais das funções de realização de exposições e workshops não só na Rússia mas também no estrangeiro. A Câmara de Comércio e Indústria proporcionará às organizações a participação nos preparativos de exposições e business programs nas exposições mundiais na Expo-2012 na cidade de Yeosu, Coreia do Sul, e na Expo-2015 em Milão, Itália.

Como é que a CCI planeia desenvolver as relações com Portugal, qual é a perspectiva dessas relações?

Como sabe, Portugal atravessa tempos difíceis. Mesmo assim, estamos persuadidos de que existem boas pers¬pectivas para o desenvolvimento das ligações dos meios de negócios dos dois países. Durante os últimos anos estas têm-se desenvolvido com sucesso com o patrocínio da Câmara de Comércio e Indústria de Moscovo. Seria importante transferir a experiência de cooperação acumulada para outras regiões, intensificando a sua componente de investimento, assim como a orientação para os sectores relacionados com as tecnologias inovadoras.

Na minha opinião poderão ter pers¬pectivas sectores tais como: produção de moldes, em primeiro lugar, para a indústria automobilística; tecnologias de informação, designadamente, software para instituições da saúde pública e da cultura; concepção e construção de infra-estruturas civis; fontes de energia alternativa; farmacêutica.

Devemos reforçar a cooperação nas esferas em que Portugal já tem há muito boas referências, como produtor e fornecedor de artigos de alta qualidade, entre os quais estão os famosos vinhos portugueses, o vinho do Porto, calçado, roupas, têxteis para o lar, móveis, materiais de construção e de acabamento. Consideramos importante o estabelecimento de relações directas entre os contratantes russos e portugueses, porque há casos em que os artigos portugueses chegam à Rússia através de intermediários.