Porque é que há tão poucos vinhos portugueses no mercado russo?

É sabido que o conceito de “vinho” desperta no homem os mais fortes sentimentos que pela sua emotividade podem corresponder à palavra “amor”. Portugal é um dos pioneiros na produção de vinho tendo começado a produzi-lo ainda no primeiro século da nossa era, quando os romanos começaram a instituir os postos alfandegários na Península Ibérica.Ainda que o vinho português tenha uma história tão rica, só nos últimos 20/30 anos recebeu um verdadeiro reconhecimento internacional. Actualmente, Portugal entra no top dos dez produtores mundiais de melhores vinhos, com volumes anuais de produção de 80 milhões de litros.

Depois de aderir à União Europeia, tiveram início processos acelerados de aperfeiçoamento da indústria vinícola com a criação de um grande número de regiões com o controlo estatal, a D.O.C, que andará por volta das 30 actualmente, com a utilização das novas tecnologias e uma alteração considerável na geografia das exportações. Só nos últimos anos um grande número de produtores portugueses conseguiu resultados consideráveis, apresentando ao mundo uma gama de vinhos de sabor único.Como resultado deste processo, Portugal tem sido agraciado com um número considerável de condecorações internacionais. Em todas as últimas exposições internacionais de vinhos (International Wine Challenge) ocupa consecutivamente o terceiro lugar na qualidade, depois da França e da Austrália, deixando para trás países como a Espanha, a Itália e os EUA, enriquecendo a sua colecção de condecorações com 465 medalhas pela qualidade.

Qual a razão deste salto qualitativo? A razão reside, no fundamental, no posicionamento histórico do país, no cultivo das matérias-primas vinícolas, pressado na fórmula “orgulhosamente só” provocada pelo isolamento da vida mundial pelo regime ditatorial (1927/1974). Por isso, quando o mercado mundial “partilhou experiências” e desenvolveu castas de uvas como Cabernet, Sauvignon, Pinot Noir, entre outras, os portugueses começaram a fazer os seus próprios “trabalhos de casa”, alargando as fileiras do seu sortido de castas muito antigas, tais como Touriga, Nacional, Baga, Castelão, Alvarinho, Arinto, Fernão Pires, etc.

O país produz anualmente 10 milhões de hectolitros de vinho, distribuídos por cerca de 60 milhões de garrafas, cerca de sete mil marcas de vinho verde, 25 mil de branco e 30 mil de tinto. A Rússia ainda está a descobrir este tipo de bebida tão saborosa. Não é segredo que antigamente pela força das peculiaridades étnicas e geográficas do nosso país consumiam-se, no fundamental, só bebidas fortes ou licores. Efectivamente, na Rússia czarista chamavam à vodka “vinho branco”, porque o nome do vinho se referia apenas à cor. A bebida só recebeu o nome de vodka nos tempos da guerra com Napoleão. O consumo de vinho na Rússia (à excepção da elite que o comprava nas redes de lojas Beriozka) começou em meados dos anos 90.Sendo que, se durante o período de 2004 a 2008 (em quatro anos) o aumento do consumo foi de 10%, agora o aumento anual constitui 5%.

Ao nível europeu o consumo de vinho na Federação da Rússia está ainda muito atrasado. Na Europa consomemse 15-20 litros por ano por habitante, enquanto na Rússia este índice constitui 5-6 litros, mas, em contrapartida, consomem-se 14 litros de vodka. Actualmente, a Federação da Rússia importa cerca de 600 milhões de garrafas de vinho, tendo um consumo geral de 900 milhões de garrafas (ou seja, 70% provém da importação). Os fornecedores fundamentais são a França, a Itália, a Espanha e a Moldávia. Dos vinhos portugueses na Rússia só é conhecido o Vinho do Porto. Já nos finais do século XVIII a elite da corte czarista, durante as férias e tratamentos regulares na ilha da Madeira provou e apreciou tanto o vinho dessa ilha, como o vinho do Porto. Mas este vinho não chegava à restante população.

Durante os tempos da URSS, como ajuda fraternal ao Partido Comunista Português foram compradas remessas consideráveis de Vinho do Porto através da empresa Comércio e Impor-Leste. O preço de venda ao público de uma garrafa de Vinho do Porto era de 6 rublos (a vodka custava 3,62 rublos). Para as lojas Beriozka, onde a venda era feita em divisas estrangeiras, eram compradasalgumas marcas de vinhos de preço médio, tais como Casal Garcia, Grão Vasco e Mateus, mas em quantidades muito reduzidas. A propósito, o vinho Mateus já era o vinho mais popular na Federação da Rússia para a organização de recepções entre a elite russa e diplomatas estrangeiros.

O que há de interessante no momento actual? Por um lado, Portugal, ao produzir 60 milhões de garrafas de vinho anualmente, aspira entrar no mercado russo; por outro, a Rússia, ao consumir 600 milhões de garrafas de vinho importado e tendo a possibilidade de aumentar essa quantidade, porque o gosto pelo vinho aumenta de ano para ano, não está pronta para a importação de vinho de Portugal. Porquê? A resposta é simples: é necessário “trabalhar” a questão da importação de vinhos na Rússia, tal como outro produto qualquer. Ele tem de ser publicitado, apresentado (ou seja, realizar apresentações), exposto, devendo mesmo “impor-se”.

A parte portuguesa não está ainda preparada para isso, lamentavelmente. Enquanto a política de preço/qualidade dos vinhos de Portugal não se alterar, apesar de serem dos melhores e com grande capacidade de concorrência no mundo. Hoje os portugueses consideram-se pela qualidade dos vinhos ao nível da França ultrapassando a Espanha e a Itália. Além disso, o preço de uma garrafa de Barca Velha, o vinho mais caro, nos restaurantes de Portugal não ultrapassa os 180 euros.

Só há uma solução – ser mais activo, não obstante a crise e a tradicional falta de vontade dos portugueses em gastar em publicidade.Mas isso é indispensável. Pois para se “expirar” é necessário primeiro “inspirar”. Mas esse “fôlego”, ou seja, a sua ausência, é o ponto mais fraco dos empresários portugueses. O máximo que eles podem fazer é fornecer o vinho que não conseguem vender em Portugal a pronto pagamento. Quanto ao pagamento de taxas aduaneiras, armazenamento, publicidade consideram ser um dever do importador. Enquanto isso, França, Itália e Espanha há já muito assumem essas despesas. Por isso para o importador russo é muito mais fácil e vantajoso importar vinho de outros países.

Mesmo assim já se nota algum progresso.Com a sugestão do Departamento Comercial da Embaixada de Portugal na Rússia, assim como da Associação de Empresários de Portugal começaram a realizar-se desde 2010 provas de vinho em Moscovo (Hotel Nacional). Alguns produtores portugueses tentam participar com regularidade na exposição russa “Prodexpo”. Os importadores russos através da Câmara de Comércio e a sua representação em Moscovo começaram em 2010 a participar activamente nas maiores exposições de bebidas da Europa da SISAB em Lisboa.

Mas tudo isso, lamentavelmente, é uma gota no oceano. Enquanto os portugueses não fizerem primeiro “inspirar”e “expirar” não será possível vender vinho nas regiões da Rússia. A escolha está do lado dos produtores portugueses. Chegou o momento de decisão, sobretudo em tempo de crise.